Exercitar a criatividade é um desafio diante de redações cada vez mais enxutas e da exigência diária de produção de conteúdos para preencher os telejornais.
Aline Granja*
Luciana Bistane é editora da Globo em São Paulo, foi professora de telejornalismo na PUC-Minas e na faculdade Cáper Líbero, além de já ter ganho dois prêmios Wladimir Herzog. Luciane Bacellar trabalhou nas principais redações do país, passou pela Bandeirantes, SBT e Globo e atuou como apresentadora, roteirista e repórter de telejornais como Jornal Nacional, Jornal Hoje, Jornal da Globo, Bom Dia Brasil e Fantástico. Com esta larga experiência, as duas jornalistas lançaram o livro "Jornalismo de TV". Abaixo uma entrevista pata o "site" telejornalismo.com
Telejornalismo.com - No livro, vocês dizem que o profissional de televisão deve buscar alternativas para elevar a qualidade da programação. Como conseguir chegar nestas soluções, a criatividade seria uma das aliadas?
Luciana Bistane - Embora haja muito de técnica no trabalho diário, a criatividade é uma aliada - sempre. Mas, talvez falte ousar um pouco mais. Modernizar a linguagem dos telejornais. Alguns são super bem feitos, mas são quadrados. Também nos repetimos - como diria o sociólogo Pierre Bourdieu - num jogo de espelho. Com exceção de reportagens exclusivas, todos os jornais do dia trazem as mesmas informações. Só acontece uma dúzia de coisas interessantes por dia, que mereçam ser mostradas? Acontece que, ao contrário dos jornais impressos, em televisão são vários telejornais no mesmo dia - o que encurta o tempo de produção. O ideal seria que os produtores pudessem circular pela cidade, se aproximar mais das áreas que cobrem e sugerir assuntos mais variados. Mas, o volume de trabalho não permite isso. Isso está gerando outra distorção: o avanço das assessorias sobre o jornalismo. A grande imprensa tem transformado releases em matérias informativas. E por trás dos releases sempre há algum interesse. Além de sugerir a pauta e a entrevista, os assessores chegam a oferecer personagens e até consultores.
Luciane Bacellar - Exercitar a criatividade é um desafio diante de redações cada vez mais enxutas e da exigência diária de produção de conteúdos para preencher os telejornais. A informação diversificada e a busca de novos ângulos de uma notícia são fundamentais para não cair na mesmice do jornalismo de agenda - aquele em que os profissionais se prendem a datas para formular pautas. Um caminho para inovar é pesquisar, levantar dados, procurar assuntos interessantes, pensar em formatos diferenciados de apresentação, buscar aqueles entrevistados que abordam assuntos relevantes e com opiniões consistentes. Daí é encarar a frustração de ver uma proposta rejeitada ou não pela editoria, e começar tudo de novo.
Telejornalismo.com - Com a popularização de produtos que oferecem facilidade de captar vídeo (como celular com câmera, por exemplo), o espectador tem visto imagens de "cinegrafistas amadores" nos telejornais. De que forma o jornalista pode avaliar a veracidade destas imagens e saber se elas contribuem para o noticiário?
Luciana Bistane - Já contávamos - há algum tempo - com os cinegrafistas amadores e suas câmeras antenadas, que vivem de vender flagrantes. Na TV Globo, pelo menos, desde sempre se verifica a veracidade das imagens. Agora, podemos contar também com as imagens feitas por celulares. Flagrantes que enriquecem o trabalho em televisão. No desmoronamento da obra do metrô, em SP, por exemplo, a imagem feita por um dos operários é um registro importante...interessante, o flagrante da notícia. E foi utilizado para ilustrar as reportagens que fizemos sobre o acidente.
Luciane Bacellar - A produção audiovisual com esses novos equipamentos é um avanço, na medida em que permite fontes mais variadas de informação e flagrantes. Qualquer pessoa pode fotografar, filmar, dar publicidade a um fato. Sem dúvida, essa democratização dos meios de produção contribui para um telejornalismo mais rico. Um exemplo foi a cobertura do desabamento do metrô de São Paulo. Vimos helicópteros, entradas ao vivo e imagens feitas com celular, gravações de câmeras de segurança e microcâmeras registrando os trabalhos no interior do túnel. Recursos que nos ajudaram a ter uma idéia melhor do que se passou, como peças de um quebra-cabeças.
Telejornalismo.com - Com uma câmera na mão qualquer pessoa pode "gerar notícia", ou seja, pode fazer papel de repórter, mesmo que não tenha estudado e nem se formado na área de Comunicação. Qual sua visão sobre isto?
Luciana Bistane - Volto a dizer: É tecnologia na veia. Cada vez mais. Ponto pra modernidade. Mas isso não significa que toda e qualquer pessoa vá "gerar notícia". Se for notícia - na concepção da palavra - e se a pessoa em questão for repórter nato, que bom. Vai se revelar. Se poderá exercer a profissão em veículos de comunicação, creio que não, porque ainda se exige o diploma. Mas, aí é outra discussão.
Luciane Bacellar -. Uma câmera na mão permite o registro de um fato, mas não significa que o trabalho tenha valor jornalístico. No caso do metrô de São Paulo, as melhores coberturas foram aquelas que não se limitaram à emoção transmitida pelas imagens captadas das mais diversas formas. Foram as que tiveram o equilíbrio de não se deixar levar pela "espetacularização" da tragédia e conseguiram amarrar tudo com a análise, com a contextualização dos fatos, com a investigação das causas e das responsabilidades. Esse diferencial é que faz do telejornalismo uma atividade que permite uma melhor percepção dos acontecimentos.
Telejornalismo.com - O que você diria para os estudantes de Comunicação que pretendem seguir carreira na área de telejornalismo?
Luciana Bistane - É uma profissão interessante, mas cansa, exige entrega e vocação. O contato diário com assuntos e pessoas diferentes é enriquecedor. E é um jeito honesto de ganhar a vida, embora, ao contrário do que se imagina - pouquíssimos ficam ricos trabalhando em televisão. Não se tem prazer todo dia. Mas, se tem muito prazer.
Luciane Bacellar - Ler, ler e ler, muito e sobre todos os assuntos, para ter uma visão mais ampla dos fatos. Dominar os novos recursos de produção audiovisual garante versatilidade neste mercado disputado, e mais, permite a produção de trabalhos autorais.





